O Último Samurai

Meus queridos

 

Na reunião do departamento de Yôgacine do próximo sábado, dia 15 de Setembro de 2007, iremos ver o filme O Último Samurai.

 

Nalguns dos “apontamentos” que ao longo deste ano fui produzindo para vós, referi várias vezes a relação mestre/discípulo e o que de honra, de tradição, de lealdade de fidelidade havia em tal. Alertei-vos também para o facto de o artístico estar tantas vezes a um passo do intuicional. Por isso mantemos este departamento. Referi-vos a morte e também, a vontade necessária a desenvolver uma vontade poderosa, capaz de por termo à vida, que no tantrismo se chama de iccha mrityu.

 

Vou deixar-vos algumas notas, que vos guiem no visionamento do filme:

 

A civilização hindu é tida pelos estudiosos da filosofia ao longo da história da humanidade, como a civilização da consciência, da meditação e da interioridade. A civilização que concebe o conceito de dárshana – visão, ponto de vista. A mera visão do mestre pode ser um instante de grande evolução do discípulo. A mulher tântrica que, num momento, concede a um homem, a um dado homem, um dárshana do seu corpo, ou de uma parte deste, permite-lhe essa visão, concede-lhe essa graça, como se de uma deusa se tratasse. E na verdade é-o nesse instante. Esse homem deve ficar-lhe grato para sempre – claro que para o entender tem de ser também um homem tântrico. Esse instante é também absolutamente inspirador para esse homem. Consiste para ele numa verdadeira bênção, com toda a carga emotiva que queiram associar a tal conceito – bênção. Mas é disso mesmo que se trata. E, pode ser também, um momento que o impulsiona para outro estágio evolutivo.

 

Dárshana, significa, também, clarividência. Significa que estamos despertos, não só ao ritmo a que os objectos nos surgem aos sentidos, mas também com uma consciência activa, lúcida e sabedora de que os sentidos, só por si, nos limitam. Logo é necessário ir além deles. Os objectos que nos vão surgindo aos sentidos, são a base de reflexões futuras. O ver, a visão, proporcionada pelo dárshana é um ver teleológico, ou seja, um ver que tem uma finalidade, orienta-se para um fim. é um ver para a luz, para a luz que ainda não alcançámos, mas procuramos.

 

Nesta civilização, começou a entender-se que o homem sábio, era um homem de bem. Ora o homem para ser de bem, chega lá através da virtude e da harmonia dos ritos. E essa virtude não é a moral como a entendemos. É a virtude de fazer corresponder as palavras às coisas. Quando isso acontece a ordem e os ritos estão assegurados. Por isso o sábio não fala do que não sabe. Por isso também não responde quando a pergunta está mal formulada. Em consequência, têm-se que o governante deve acima de tudo, corrigir os nomes das coisas. Se os nomes não forem correctos, o discurso não é coerente. Assim o homem de bem é aquele que só fala quando tem conhecimento do que fala.

 

Estas razões levam-nos a uma perspectiva ontológica na qual temos de concluir que se sábio é o homem que faz corresponder as palavras, os nomes, às coisas, então, a via (marga), o caminho (yana), é o próprio homem que o percorre. É o homem que alarga a via. Podemos dizer até que o homem é a própria via. Um dia, a propósito de outro assunto, numa conversa unilateral com um de vós, este disse-me que eu tinha ansiedade de percorrer o caminho, de alcançar a meta. Respondi-lhe que o caminho, esse faz-se caminhando. A meta alcança-se chegando. E isso nunca se deve perder de vista. Não há caminho para além daquele que cada um de nós percorre. De que vale o caminho, ainda que o mestre o indique se o discípulo não o percorre?

 

Isto é assim, pois a palavra, mesmo a dita pelo Mestre não pode traduzir exactamente o que é o real, nem o que é o caminho. Como Demócrito (outro filósofo grego) ensinou, “as palavras são a sombra da realidade”.

 

Ora o homem de bem, o homem sábio é aquele que procura viver em harmonia com cada instante, mesmo na busca da auto superação. Mesmo nos momentos menos bons. Porque já não vive as emoções, não porque não as quer. Não porque as rejeitou, mas sim porque são as emoções que vivem nele. São emoções perfeitas, belas, que passam por ele. E não ele que passa por elas. O homem de bem tem emoções perfeitas. Se ama, fá-lo verdadeiramente, assim como odeia, com ódio. Antes de mais o sábio age porque tem de agir, sem consciência de que é sábio. Age com a inocência da criança. Por isso o convívio com a criança é tão difícil como é com o sábio, para aqueles que procuram a ilusão. Pois ambos apontam o que têm a apontar, mesmo quando não gostamos. É a história de só a criança disse: “o rei vai nú.”.

 

Porém, não obstante, sempre houve, da parte da civilização hindu, uma procura de compreender e explicar o real. Sempre houve o desenvolvimento de uma filosofia da linguagem que procura compreender, procura explicar e analisar o real e as suas categorias.

 

A civilização hindu, gradualmente acabou por se desenvolver como uma civilização ética. Tal atitude já está patente no Rig Vêdá e nas Upanishad.

 

Mas, na verdade, a ética é profundamente desenvolvida no Bhágavad Guitá.

 

Esta obra tem como estruturas básicas da ética, o karma, a transmigração das almas e a hierarquia do real.

 

Sem avançar muito por estes temas, expressa-se no Bhagavad Guitá o valor da iniciação, sendo que sábio é o que nasceu duas vezes. Uma aquando do nascimento biológico, outra aquando do encontro consigo próprio.

 

Esta obra justifica o caminho guerreiro como um meio de evolução pessoal do guerreiro e como fonte de aprendizagem. Claro que se refere à guerra em que o confronto se faz cara a cara. Vê-se o adversário antes de o matar.

 

Nesta obra, Arjuna, fraqueja perante a ideia de ir matar, no exército inimigo, tanto familiares, como gurus. Perante tal ideia Arjuna prefere sofrer a injustiça do que cometê-la. Krishna interpela-o e trata-o, trata os guerreiros, como sábios que devem cumprir o dharma, o dever, e devem, imperturbavelmente destruir o corpo se necessário for.

 

Desenvolve-se uma filosofia ética, baseada na atitude sábia do guerreiro perante a guerra.

 

Veremos essa atitude a desenrolar-se perante os nossos olhos no filme a que assistiremos. Tanto do guerreiro ocidental, como dos guerreiros japoneses. Veremos como o guerreiro ocidental se encontra perdido pelos seus actos em guerra e como os japoneses não, exactamente pela dimensão ética do sábio guerreiro.

 

Veremos a lealdade até à morte, do samurai Katsumoto, perante o imperador. Veremos a honra com que os samurais lutam e são leais.

 

No Japão desenvolveu-se, até ao rito, a ética guerreira que já se encontra sistematizada no Bhagavad Guitá.

 

Verificaremos o valor de abhyása, a prática diligente, como modo de estar perante a vida. É o valor da acção disciplinada – dharma.

 

Deixo-vos parte de um texto que escrevi acerca deste filme, numa conversa unilateral:

 

“A busca tenho de a fazer sozinho, como tantas coisas na vida tenho feito, como lobo solitário. Pois tantas vezes me interrogo: terei coragem? Serei ousado? Não uma coragem perante testemunhas, uma coragem fácil, mas sim uma coragem de solitário ou de águia, que não tem ninguém por testemunha. Aquele que tem coragem, ainda a propósito do medo da morte, é o que conhece o medo, mas domina-o; é o que vê o abismo, mas consegue lançar-se neste, com a esperança de voar, ou a certeza de cair. Aquele que olha o abismo com olhar de águia, mas que lida com ele com garras de águia, sem testemunhas, esse tem coragem. Tê-la-ei eu? Ponho-me à prova uma e outra vez.

Sobre a morte, refiro um dos meus filmes preferidos – O Último Samurai. Neste filme, e refiro-o de memória, já num dos últimos capítulos, uma das crianças com que o oficial americano, agora já samurai, vive, interroga-o sobre se este irá lutar contra o exército que aí vem atacá-los. O americano responde que sim, “porque eles virão para destruir o que aprendi a amar”. Esta é uma motivação tão intensa, tão elevada, tão sentida, que não há como não nos sentirmos identificados. Qual de nós não lutaria por aquilo que aprendeu a amar? Eu faço-o.

Mas na continuação da conversa, a criança diz ao samurai americano, “eu teria medo de morrer em batalha”. O americano responde-lhe “eu também”. E a criança estranha tal resposta, vinda de um guerreiro de mil batalhas e diz-lhe, “mas já travaste tantas batalhas”. O samurai diz-lhe “e tive sempre, sempre medo”. E este tem coragem, pois conquista o medo.

No fim do filme, quando o chefe do clã, Katsumoto, já ferido, quer morrer, o americano tenta dissuadi-lo, e aquele responde-lhe “recuperaste a tua honra, deixa-me morrer com a minha.” E no instante em que avança para a espada do americano e é por esta trespassado, olha as cerejeiras, que varridas pelo vento, deixam cair as suas flores, a que o samurai se quer assemelhar com a pureza com que deixa cair a sua vida.

Neste, filme, num primeiro confronto entre o jovem exército japonês e o clã de Katsumoto, o americano luta como o tigre, aliás, expresso no estandarte da lança com que luta. O espírito do guerreiro, que não desiste da luta, ainda que a morte seja a consequência mais provável.

Em momentos anteriores deste filme, quando o americano está prisioneiro, numa das visitas que faz a Katsumoto, este tem a mão direita junto das flores de uma cerejeira. A mão que pega a espada, a mão que dá a morte, mas que também dá a vida, a mão que escreve a poesia, a mesma que toca a beleza e a perfeição da flor da cerejeira.

Nesse local, o samurai diz ao americano: “não temes a morte mas, às vezes, deseja-la.”

Não a teme, mas tem medo de morrer. Que contradição. Mas é assim mesmo. Se a morte fosse algo que se aceitasse naturalmente, como o respirar, não precisaríamos de desenvolver iccha mrityu para, por acto de vontade, pormos termo ao corpo físico, darmos a morte ao nosso corpo.

Mas que posso dizer mais? Há mais sabedoria numa nuvem sombria do que em mim. Ao menos a nuvem sombria, a da tempestade, dá a luz do raio.”

 

Neste filme veremos como estes guerreiros, sobretudo, numa primeira fase, o samurai Katsumoto usa a mente como uma lâmina tão afiada como a sua espada.

É a ética ritualizada. É a acção disciplinada. É a sabedoria, a honra, a lealdade até à morte.

 

SwáSthya

(C)Copyright, João Camacho, Yôgachárya

Discípulo do Mestre DeRose

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