A Sombra

Epístolas aos meus discípulos:

 

Meus queridos

 

Deixo-vos algumas notas sobre a sombra e a necessidade da sua integração.

 

arquétipos. São como projectos, compostos de intenção e de energia. Há vários e já nascemos com muitos deles. Por exemplo, as crianças, quando nascem, e até certa idade, reagem melhor a uma voz feminina do que a uma voz masculina. Isto tem a ver com um arquétipo. Os arquétipos permitem representar uma sabedoria intuitiva secreta que escapa à representação simbólica directa. Por essa razão Jung descobriu uma grande similitude entre os símbolos, lendas e rituais das religiões orientais e das religiões ocidentais, entre a alquimia ocidental e a alquimia oriental. Jung descobriu que os arquétipos desempenham um importante papel nos processos psíquicos que influenciam cada um de nós. Profundamente enterrado na psique humana encontrava-se o inconsciente colectivo (chamamos-lhe akasha), os arquétipos de milhares de anos de experiência humana. Estes arquétipos podem ser usados para explorar os limites entre o consciente e o inconsciente. O uso de arquétipos como objecto de meditação, funcionam como portas de entrada no inconsciente, sem se esperar que estes surjam do inconsciente.

 

Um de vós, um dia destes, comentava comigo que, por vezes, consegue observar-se, como se se visse de fora, como se fosse um observador externo.

 

O caminho para a consciência não é linear. É feito de procuras constantes do centro. Aliás a ideia do labirinto, como fonte de procura do seu centro, é uma imagem fantástica, pois uma e outra vez procuramos o nosso centro. Uma e outra vez procuramos o centro do labirinto, em busca do nosso Eu mais profundo. São as provações do labirinto. E, uma e outra vez nos perdemos nos caminho, nos perdemos do nosso centro e nos desequilibramos. Nessa busca, nessa procura, confrontamo-nos com a nossa sombra. A sombra é um dos arquétipos universais reconhecidos tanto pelas tradições ocidentais como pelas tradições orientais. Todos os Grandes Iniciados se confrontaram, com a sua sombra. Todo o guerreiro da luz um dia já se perdeu e se deixou afundar na sombra, falhando, descobrindo o seu lado negro. Mas ainda assim continuou o seu combate, a sua luta inquebrantável, rumo à consciência.

 

A sombra é uma energia que se organiza de forma intensa, poderosa, mas destruidora e viscosa. Tem vontade própria que, entregue a si própria, pode levar, no limite, até à destruição dos que não têm capacidade de se defender. Aceitar a sombra, aceitar que ela existe e em nós, em cada um de nós, exige do iniciado um esforço moral e de consciência considerável, dado que passamos a maior parte do tempo da nossa vida a reprimi-la.

 

A sombra é, de imediato, o que se opõe à luz, embora seja esta a criá-la, pois sem luz, a sombra não existe. Por outro lado a sombra constitui uma imagem das coisas fugidias e mutáveis. A sombra é também os traços de carácter inferiores e outras tendências incompatíveis com o nível ontológico a que o iniciado se catapultou pelo esforço de ascese. A sombra não é, por natureza, maléfica. Mas pode tornar-se, se for infinitamente recalcada no inconsciente. O iniciado só tem a ganhar em passá-la para a luz da consciência. Muitas vezes teme-se o aparecimento da sombra, pois é doloroso, e há sempre o medo de termos que assumir as nossas sombras, para as dominar, ou para as tornar benéficas. A coexistência dos contrários, no mesmo ser, é sempre difícil de suportar, contudo a complexidade de tal situação é muito mais enriquecedora. A complexidade é tão intensa que, por vezes, temos de sair de nós e saltar como um tigre sobre nós próprios para nos arrastarmos de novo para a luz, como disse a um de vós.

 

Eliade, A Provação do Labirinto, refere, como só ele consegue fazê-lo, esse perigo da procura interna e do confronto com a sombra. E o que diz é tão intenso que “assusta” quem ainda não se confrontou com o seu lado negro. E Eliade só aborda o perigo a que se sujeitam aqueles que observam os fenómenos do lado de fora. Muito mais intenso para os que mergulham nessa experiência. O C. no texto que escreveu para o SwáSthya Yôga Sádhana V, referiu que estes encontros servem para um mergulho no Yôga. E essa afirmação pode ser muito mais intensa do que, talvez, alguns de vós o tenham percebido.

 

Diz Eliade:

 

«O espírito está em perigo desde o momento em que tenta penetrar o sentido profundo de uma das criações mitológicas ou religiosas, as quais também são expressões existenciais do homem no mundo. Do homem, de um caçador primitivo, de um camponês da Ásia Oriental, de um pescador da Oceânia. No esforço hermenêutico do historiador das religiões e do fenomenólogo para se compreender por dentro a situação deste homem, existe um risco: não só de se dispersar, mas também de ficar fascinado pela magia de xamã, pelos poderes de um yôgi, pela exaltação de um membro de uma sociedade orgiástica. Não digo que fiquemos tentados a tornarmo-nos um yôgi ou um xamã, um guerreiro ou um exaltado. Mas sentimo-nos em situações existenciais estranhas ao ocidental e que lhe são perigosas. Esta confrontação com as formas exóticas que nos podem chocar, tentar, é um perigo de ordem psíquica. Foi por isto que comparei esta busca a uma longa viagem no labirinto; e trata-se de uma espécie de prova iniciática.

(….) Para compreender por dentro esse mundo deve vivê-lo. É como um actor que entra nos seus papéis, os assume. Por vezes existe uma tal diferença entre o nosso mundo ordinário e este mundo arcaico que a nossa própria personalidade pode ser posta em jogo.

(….) Sabemos bem, por exemplo – e mesmo os freudianos o dizem -, que o psiquiatra arrisca a sua própria razão ao frequentar a doença mental. O mesmo é válido para o historiador das religiões, O que estuda toca-o profundamente. (….) Vós participais no fenómeno que tentais decifrar: como se se tratasse de um palimpsesto, da vossa própria genealogia e da vossa história. E o poder do irracional, com efeito, está aí presente…. É a própria condição do homem quase revela desse modo.

(….) A confrontação com o vazio, com o nada, o demoníaco, o inumano, a tentação de regressar ao mundo animal, todas estas experiências extremas de dramáticas são a fonte das grandes criações do espírito, pois, nessas condições terríficas, o homem soube dizer sim à vida, tendo encontrado uma significação para a sua existência.

(….)

Pensava sobretudo em Durga, por exemplo, uma deusa sangrenta indiana, ou em Kálí: deusas-mães que, entre outras coisas, exprimem o enigma da vida e do universo, quer dizer, o facto de nenhuma vida se poder perpetuar sem o risco de morte. Estas deusas terríveis pedem o sangue, ou a virilidade, ou a vontade dos seus fies. Mas compreender essas deusas é, ao mesmo tempo, receber uma revelação de ordem filosófica. Compreendemos que esta união de virtudes e de pecados, de crimes e de generosidade, de criatividade e de destruição, representa o grande enigma da vida. Se devemos viver a existência de um homem, e não a de um autómato ou de um animal, nem a de um anjo, é com esta realidade acima descrita que somos confrontados. (….) Do mesmo modo, para todos os povos que aceitam a grande mãe, o culto dessas deusas terríveis é uma introdução ao enigma da existência e da vida. A própria vida é esta “grande mãe terrível” que corta as cabeças e que concebe; que simultaneamente assegura a fertilidade e o crime e, ainda, a inspiração, a generosidade, a riqueza. (….) A deusa-mãe é, simultaneamente, aquela que concebe e aquela que mata. Nós não vivemos num mundo de anjos ou de espíritos, nem mais num mundo unicamente animal. Estamos “entre”, e penso que a confrontação com a revelação deste mistério é sempre seguida de um acto criador. Penso que o espírito cria sobretudo quando está confrontado com grandes provações.»

 

Para finalizar aconselho, vivamente, a leitura de um conto de Andersen – A Sombra.

 

Azeitão, 4 de Julho de 2007.

 

(C)Copyright, João Camacho, Yôgachárya

Discípulo do Mestre DeRose

 

“Sou irmão de dragões e companheiro de corujas.”

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